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A Voz do Minho
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Escrito por: Flávio Silver
Já alguém dedicou uma crónica aos caçadores? Que burro!, claro que já!, ou não fossem eles os predadores de tudo ou quase tudo que se mexe no ar. Um dia que um anjo resolva vir à terra, está-se mesmo a ver o que acontecerá à sua brancura. Ou mesmo eu, que às vezes ando com a cabeça no ar, portanto, convem-me não dizer muitas piadas sobre eles, senão, pum pum.
O caçador tem um estilo próprio, acreditem, os coletes de verde pinho que eles botam por cima dos camisolões para ficarem mais entroncados, têm uma ciência por explicar dentro deles. Ou seja, nunca ninguém descobriu a verdadeira função daquele aparatoso colete, cujos setecentos bolsos abrigam mortalhas, piriscas, quatro latas de cerveja, fisgas, etc. Mas isso nada importa. Penso que eles usam isso para não serem confundidos com agentes florestais ou sub de sub-empreiteiros que andam a apalpar terreno para a criação de bordéis. O caçador, é por norma, a seguir aos pescadores de rio poluente, mesmo à frente de consultores imobiliários, os maiores gabacholas. Passo a explicar: mesmo que a caça lhes corre má, utilizam expressões um pouco Pessoanas, do tipo: “só vim matar saudades”, ou, “ vim matar o tempo”.
A palavra morte é uma constante nos seus vocábulos. Entram nos cafés com estilo peculiar, como se revivessem o velho Texas e os sallons: de pernas arcadas por andarem a afastar mato, um olhar (com)penetrante que nenhuma cirurgia estética jamais imitará, um bafo a pólvora para assinalar a presa, o dedo indicador sempre em movimento, causado pelo vício do disparo e, o colete - lá está outra vez o enigma por resolver -, a esconder o pneumático alojado no estômago.
Os caçadores usam galocha mesmo quando está calor, não vá uma minhoca resolver fazer das suas. Se bem que, quando a história é contada pelas suas bocas, a minhoca que era, ganha feições brutais nas suas narrativas dignas de registo em livro do patinhas.
Outra característica comum a muitos caçadores, é a patilha. Que vai de uma orelha à outra, passando por entre o nariz e o lábio superior que, além do sentido estético - e que bem lhes fica - cumpre as normas europeias de arquitectura facial.
Os portugueses são exímios na arte de caçar. Primeiro disparam depois é que apontam. Por isso é que alguns deles foram chamados para o Iraque. Admito que tenho uma certa admiração pelos caçadores, pelas suas carrinhas de caixa-aberta, pela frieza que eles possuem quando enfrentam cara a cara as suas presas. Estar a meio metro de uma perdiz não é fácil.
Os cães dos caçadores são outra fonte de inspiração para qualquer porteiro de discoteca. Os seus apuradíssimos faros não se deixam enganar pelo cheiro de sovaco deslavado a um Channel vendido pelos marroquinos. Incrível! O porte atlético do animal, alguns traçados com focas de circo, correm mais do que qualquer senegalês quando o avião da ajuda internacional atira um saco de cereais para o meio do nimbo.
Outra razão para eu gostar deles é a inveja que eu tenho das suas boinas. Dizem eles que é para as aves os confundir com as ervas e plantas. Eu aqui lamento mas discordo, já que, o avô do meu avô usava uma boina, que lhe saiu numa rifa, de angariação de fundos para viciados em pastilhas Gorila, e, senão fosse isso, os pássaros poisavam na sua careca.
Um caçador, segundo ele, nunca falha um disparo, mas sim, porque naquele milionésimo de segundo deu-lhe um ataque de compaixão, pensou nas crias que esperam pelo bico da sua mãe.
Alguns até choram como bebés quando abatem uma presa que no fundo dos seus sentimentos não queriam. Só dispararam porque não querem chegar a casa sem os vinte e sete coelhos à cintura para a boda da filha mais nova. Eu gosto mesmo é dos caçadores de prémios, esses malucos que viram tripas em busca de uma recompensa.
Pelo Bin Laden dá-se milhões de euros. Ora aí está uma boa oportunidade para quem quer passar o tempo junto às montanhas, pois, sabe-se lá, se dentro de uma gruta ou numa loca, não esteja lá o homem que pode muito bem mudar o rumo das nossas vidas. Caçadores!, de tudo e mais alguma coisa, uni-vos! Quer para o ocidente quer para o oriente, há muitos palermas à solta. Por que não caçá-los e pô-los no xadrez, a comer papas de milho! A natureza agradece e a Democracia também. Ah, outra coisa antes me despedir, não tentem fazer graças comigo, não tenho licença para matar, mas, já cacei gambozinos, sei dar nós à pescador, sei distinguir o queijo da ratoeira, portanto…
Se fossem caçar gambuzinos ...
Este texto deveria caçar muita gente. Até parece que ser caçador não é uma brincadeira de assassinos. Uns à cata de prémios e outros pelo execrável prazer de matar.
Se eu fosse caçador caçava-os a todos, como quem diz:
Coçava-os (De Cossar e não coçar)



















