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A Voz do Minho
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Escrito por: Flávio Silver
Até aos 35 anos achava-me um tipo especial. A minha caixa de correio era invadida por cartas com declarações descaradas de fulanas que conhecia por aí. Na mesa de um bar, havia sempre um lugar para mim, davam um jeitinho para lá, para eu caber. Até a liberdade de pôr os cotovelos na mesa e tossir umas piadas me era permitido. Até essa data tinha um negócio que rendia, apesar de o Estado não me reconhecer tal mérito uma vez que eu o evitava dado aos meus negócios pouco fundamentados.
Juntei negócios a outros negócios. Senhores do Banco davam-me cumprimentos ainda que estivesse a dobrar a esquina. De sucata fazia obras de arte dignas de se mostrar de café em café – à cata de um novo-rico que se impressionasse com as minhas toscas maravilhas. Ora bem, eu para além dos relógios, vendia uns cristoszinhos em imitação de pau-preto, umas pratas banhadas a ouro, etc.
Até que um dia deu-se o caso: o fornecedor resolveu bater a bota sem anunciar, assim sem mais nem menos e eu, fiquei com o stock reduzido a meia dúzia de tringalhos para pendurar ao pescoço. Por consequência, deu-se a falência acompanhada de uma banca rota a todos os níveis: quer física quer mental. Agora estou na casa dos cinquenta, vejo a minha vida sendo ultrapassada por figurões mais habilidosos. Bem tento sociedades, mas como é preciso entrar com algum, fico-me pelo projecto rascunhado em guardanapos.
Os meus amigos já não respondem às mensagens do telemóvel. No café não existe ninguém que se ofereça para jogar comigo à sueca. Por isso, dedico-me às paciências e, mesmo assim, só com algum trocadilho é que consigo ganhar. Os dias passam, as pernas vão-se cansando ao ponto de formarem um arco. O vento parece estar cada vez mais irritado com as questões humanitárias, a solidariedade já conheceu dias melhores; há caninos na opção do menu.
Tudo mudou. As mínimas vontades caíram em desgraça. O planeta está decidido a não perdoar. Deus deixou recado mas ninguém quis ouvir. Qualquer coisinha que metemos à boca já dá vómitos. E por aí adiante. Por isso, eu não tenho a culpa que a Sorte tivesse guinado o volante no começo de uma recta. Ando só, embutido neste turbilhão de gente que se arma em feliz.
Mas cuidado, nem sempre a fruta mais apetecível é a que tem melhor sabor! Há sempre um dia em que o sonho nos prega uma partida e aí, quero ver quem é que se vai governar com pouca sabedoria. Portanto, digo, o que mais nos consola é o Saber, com esse maiúsculo, porque é ele que nos vai valer quando o senhorio nos bater à porta com aquele sorriso de escárnio.
De todo o resto, e alterando um pouco a cantiga, sou teso mas sou feliz!, passo manhãs inteiras no corredor do departamento das finanças, preenchendo formulários a velhinhos mal informados, a troco de uma bucha de qualquer ninharia, alguns até me chamam de doutor. Enfim , nunca pior!
Em fim de carreira há sempre uma paragem onde saiem uns e entram outros. Se a vida é um beco sem saída porque raio saímos sempre.
E ninguém sai de cabeça no ar. Leva-se uma vida na vertical para uma viagem além na horizontal .
Como diz o nosso escritor:
Para começar: nunca pior!



















